“Diga que eu fiz o convite e você não aceitou”

Eu até sou fã. Mas estou longe de ser tiete.

E talvez seja exatamente por isso que a entrevista de Priscila Felizola à Fan FM tenha chamado tanta atenção. Não pelo que ela revelou, mas pelo que deixou de responder. Em pouco mais de meia hora, Priscila falou, explicou, contornou, justificou, mas não conseguiu apresentar com clareza qual é, afinal, a razão política da sua ruptura com o governo Fábio Mitidieri.

E aqui está o ponto central: Priscila se apresenta hoje dentro de um agrupamento de oposição ao atual governador. Mas, durante a entrevista, não apontou uma ação concreta do governo Fábio que ela condene. Não apresentou uma crítica estruturada à gestão. Não mostrou uma divergência programática. Não apresentou uma proposta alternativa para Sergipe. A sensação que ficou é que a sua saída do campo governista não nasceu de uma discordância com o governo, mas de uma frustração pessoal com a composição da chapa.

A própria Priscila repetiu que, quando conversava com Fábio sobre seu futuro político, ouvia dele algo na linha de: “continue fazendo seu trabalho, que estou gostando”. Mas essa frase, por si só, não é convite. Não é compromisso. Não é garantia de vaga. É, no máximo, um reconhecimento institucional ao trabalho que ela vinha realizando no Sebrae.

E é bom deixar claro: ninguém aqui diminui o trabalho de Priscila à frente do Sebrae. Pelo contrário. Ela construiu uma trajetória respeitável no ambiente técnico, empresarial e institucional. Mas uma coisa é ter bom desempenho em uma função técnica. Outra, completamente diferente, é demonstrar capital político, musculatura eleitoral e preparo para compor uma chapa majoritária ao Governo do Estado.

Esse foi, inclusive, um dos pontos mais fortes levantados por um ouvinte: qual é o capital político de Priscila para querer ser vice-governadora?

A pergunta é dura, mas legítima. Porque, até aqui, a principal justificativa apresentada por ela não foi “quero ser vice porque tenho um projeto para Sergipe”. Foi algo muito mais próximo de: “achei que poderia ser escolhida”.

A frase mais simbólica da entrevista veio quando o jornalista Narcizo Machado perguntou o que ela gostaria de ter ouvido de Fábio. A resposta, em essência, foi: “diga que eu fiz o convite e você não aceitou”.

Esse trecho resume tudo.

Porque, no fundo, Priscila não parece cobrar de Fábio uma decisão administrativa, uma falha de governo ou uma traição programática. Ela parece cobrar uma frase. Uma chancela. Um gesto público que preservasse sua narrativa pessoal. Só que política não se constrói apenas com expectativa. Política se constrói com articulação, realidade, voto, grupo, tempo e clareza de projeto.

Outro momento revelador foi quando a entrevista tocou no nome de Felizola, seu marido, conselheiro do Tribunal de Contas. Ao ser questionada, Priscila disse que não gostaria de falar sobre “os outros”. Mas “os outros”, nesse caso, não são exatamente outros. Trata-se de seu marido. E mais: trata-se de uma nomeação que passou pelo ambiente político-institucional do próprio governo que agora ela critica pela ausência de espaço.

Por isso, a resposta soou evasiva.

Se o assunto fosse distante da sua trajetória, a esquiva talvez coubesse. Mas quando a discussão envolve uma relação política, familiar e institucional tão próxima, dizer simplesmente que não fala sobre “os outros” parece mais uma tentativa de escapar do tema do que uma resposta convincente.

A entrevista também expôs outro ponto sensível: Priscila afirmou que não sabia que Jefferson vinha sendo cogitado há muito tempo para compor a chapa de Fábio. E aí fica difícil não lembrar da provocação feita no próprio programa: Priscila estava mesmo em Sergipe?

Porque essa articulação não nasceu ontem. O nome de Jefferson já circulava há bastante tempo no debate político local. Em abril de 2025, por exemplo, a imprensa sergipana já tratava publicamente das movimentações em torno da vice na chapa de Fábio. Portanto, quando Priscila diz que não sabia, ela cria uma situação incômoda: ou estava distante do tabuleiro político, ou preferiu não enxergar uma movimentação que já era pública.

E as contradições não param aí.

No tema da concessão da Deso, o agrupamento de oposição também parece não falar a mesma língua. Valmir de Francisquinho declarou que, se eleito, pretende cancelar a concessão e reestatizar a companhia. Priscila, por outro lado, adotou um tom mais cauteloso, dizendo que o assunto seria estudado. Ora, se em um tema tão importante quanto água, saneamento, contrato público e segurança jurídica não há uma posição unificada, o que existe ali: projeto de governo ou ajuntamento eleitoral?

Esse é o problema.

A entrevista mostrou uma pré-candidata que ainda não conseguiu explicar exatamente para que veio. E isso lembra, guardadas as proporções, o caso de Manuel Gomes, o “Caneta Azul”, pré-candidato a deputado federal, que virou personagem justamente por não conseguir responder com clareza o que pretende fazer no mandato. A comparação é dura, mas serve para ilustrar o ponto: simpatia, visibilidade e curiosidade pública não substituem conteúdo político.

Priscila não é Manuel Gomes. Tem currículo, formação, experiência e trânsito institucional. Mas, nessa entrevista, caiu em uma armadilha parecida: falou muito e explicou pouco. Disse que não foi por cargo, mas toda a narrativa girou em torno de não ter sido escolhida. Disse que não queria remoer o assunto, mas a entrevista inteira orbitou justamente esse ressentimento. Disse que não fala sobre os outros, mas se esquivou quando o “outro” era o próprio marido. Disse que não sabia de uma articulação pública, mas quer ocupar um dos espaços mais estratégicos da política sergipana.

No fim, quando Narcizo Machado colocou no ar um trecho de Fábio Mitidieri tratando do assunto, o governador adotou uma postura de encerramento: cada um tem o direito de falar, pensar e seguir seu caminho; ele não queria ficar remoendo o tema. Ao comentar, Priscila respondeu que fazia das palavras do governador as suas.

E talvez aí esteja a maior ironia da entrevista.

Porque, se ela faz das palavras de Fábio as suas, também confirma, ainda que involuntariamente, que o governador parece estar alguns passos à frente: menos preso ao ressentimento, mais concentrado na gestão, menos interessado em transformar frustração pessoal em crise política.

Para governar Sergipe, é preciso mais do que expectativa Pri. É preciso direção, entrega, equilíbrio e projeto.

E, nessa entrevista, Priscila Felizola mostrou que ainda precisa explicar ao eleitorado não apenas por que saiu, mas principalmente para que entrou nessa nova disputa.

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