Na política, há jogadas geniais. Há jogadas ousadas. E há aquelas em que o sujeito monta a mesa, distribui as cartas, olha para o próprio jogo e percebe que talvez tenha dado um trunfo demais ao jogador errado.
É mais ou menos aí que entra Edivan Amorim.
A ideia, no papel, parecia bonita: Eduardo Amorim e André David, os dois no mesmo campo, os dois no Republicanos, os dois no palanque de oposição liderado por Valmir de Francisquinho e Emília Corrêa. Uma dobradinha para o Senado, embalada no discurso da união, da força do grupo e daquele velho perfume de “está tudo sob controle”.
Só que urna não respeita roteiro de marqueteiro. E eleitor, quando resolve escolher, não pede licença ao dono da chapa.
André David, que inicialmente era tratado como peça de composição, entrou no tabuleiro como reforço e começou a se comportar como protagonista. Segundo o Instituto França, registrado sob o número SE-07227/2026, ele aparece à frente de Eduardo Amorim nos três recortes divulgados: primeiro voto, segundo voto e cenário consolidado. No consolidado, André soma 12,56%. Eduardo, 6,08%. Ou seja: o escudo começou a andar na frente do protegido.
E aí mora o constrangimento.
Eduardo Amorim não é um nome qualquer. Foi senador, tem recall, tem história, tem discurso na saúde, tem sobrenome político e carrega a simbologia do retorno. Em tese, deveria ser o nome natural do bloco para uma das vagas. Mas a política, quando quer ser cruel, não precisa nem levantar a voz. Basta mostrar uma pesquisa.
O problema de Edivan é simples: ele lançou dois nomes para ocupar duas vagas, mas talvez tenha criado dois candidatos disputando o mesmo oxigênio. André David fala com o eleitor conservador, veste o figurino da segurança pública, agrada a ala mais ideológica e ainda aparece com frescor de novidade. Eduardo entra com tradição, passado e estrutura. Só que, em campanha, passado ajuda. Mas não substitui tração.
E tração, hoje, quem parece ter é André.
A narrativa oficial tenta vender harmonia. Eduardo diz que o grupo está unido, forte, presente nos 75 municípios e pronto para a disputa. Tudo muito bonito, muito republicano, muito ensaiado. Mas nos bastidores, a pergunta é menos elegante: como digerir o fato de que o candidato lançado para somar pode estar engolindo o candidato que deveria ser prioridade?
É o tipo de situação que deixa qualquer estrategista com azia.
Porque se André David cresce, ele não cresce no vácuo. Ele cresce em cima de alguém. Pode tirar espaço de Rodrigo Valadares, pode incomodar Alessandro Vieira, pode beliscar eleitorado de outros nomes da direita. Mas também pode avançar sobre o terreno que Eduardo Amorim imaginava ser seu por direito histórico.
E história, em eleição, não vota sozinha.
A operação de Edivan tinha cara de engenharia política. Agora começa a parecer experiência de laboratório: mistura-se recall, bolsonarismo, segurança pública, Senado, vaidade, dois votos e uma oposição tentando parecer unida. O resultado? Uma fórmula instável, daquelas que o químico olha de longe e diz: “melhor ninguém balançar esse frasco”.
Os boatos de arrependimento ainda são apenas boatos. Mas o dilema é real. Se André David continuar subindo, Edivan terá de decidir se sustenta a dobradinha até o fim ou se admite que a criatura ganhou vida própria. Porque uma coisa é lançar dois nomes para eleger dois senadores. Outra, bem diferente, é assistir a um canibalismo político com foto de família e discurso de unidade.
No fundo, a pergunta não é se Eduardo e André cabem na mesma chapa.
A pergunta é se cabem no mesmo projeto.
E, principalmente, até quando Eduardo Amorim aceitará sorrir para a foto enquanto André David aparece cada vez mais no centro do quadro


