Quando a câmara vira picadeiro e o argumento confinamento.

A Câmara de Vereadores de Aracaju viveu mais um daqueles episódios que ajudam a explicar por que a política, muitas vezes, é tratada pela população como espetáculo de baixa qualidade.

Tudo começou quando o vereador Camilo Daniel, do PT, em aparte à fala do vereador Iran Barbosa, do PSOL, fez uma declaração pesada envolvendo o senador Flávio Bolsonaro. Moana Valadares, do PL, reagiu dizendo que acionaria juridicamente o parlamentar petista por meio da executiva nacional do partido. Até aí, dentro do roteiro previsível da polarização: acusação, reação, ameaça judicial e tensão no plenário.

O problema veio depois.

Conforme sabemos, Camilo pediu espaço para responder à fala de Moana, mas o pedido não foi concedido naquele momento. A temperatura subiu, vereadores se movimentaram, os microfones estavam desligados e o plenário virou aquilo que infelizmente já se tornou comum: muito barulho, pouca técnica e quase nenhuma grandeza parlamentar.

Mas o ponto mais grave não está apenas na confusão. Está na pobreza do argumento.

Ao tentar defender seu campo político, Moana Valadares comparou a situação envolvendo Flávio Bolsonaro, Daniel Vorcaro e o Banco Master com a Americanas anunciando no Big Brother Brasil. Uma comparação tão torta que chega a constranger qualquer pessoa com o mínimo de noção sobre comunicação, crise de marca, mercado financeiro e responsabilidade pública. E pasmem, tudo isso ao vivo nas ondas da emissora FAN FM

Primeiro: a Americanas sequer aparece entre os patrocinadores oficiais do BBB 26. Segundo: o último grande vínculo da marca com o programa foi no BBB 23, justamente quando a empresa deixou o patrocínio após a revelação de inconsistências contábeis bilionárias. Terceiro: comparar uma operação publicitária de uma varejista em crise com um pedido de recursos feito por um senador a um banqueiro investigado em um escândalo financeiro é um salto argumentativo que não se sustenta nem em mesa de bar, quanto mais em alto e bom som das emissoras do nosso Estado.

Não se trata aqui de condenar Flávio Bolsonaro antes da apuração. Trata-se de algo mais básico: saber diferenciar contextos. E olhe que na tal gravação de Flávio, não vejo nada demais. Uma relação comercial, ao meu ver. Nada fora do comum.

Uma coisa é uma empresa anunciar em um reality show. Outra coisa é um agente político aparecer em áudios tratando de dinheiro com um personagem central de um escândalo bancário. São naturezas diferentes, riscos diferentes, pesos institucionais diferentes. Misturar tudo no mesmo balaio é sinal de despreparo ou de conveniência. Em ambos os casos, é ruim para o debate público.

E aí a discussão deixa de ser sobre direita e esquerda. Porque esse joguinho de “quem roubou mais” e “quem roubou menos” já é rasteiro por si só. O que assusta mesmo é perceber que uma parlamentar pode subir o tom, ameaçar acionar juridicamente um colega, ocupar espaço no debate público e, ainda assim, não conseguir construir uma comparação minimamente coerente.

A Câmara de Aracaju não precisa de mais gritaria. Já tem demais. O que falta é densidade. Falta preparo. Falta estudo. Falta capacidade de separar fato, narrativa, publicidade, crise empresarial, investigação financeira e disputa política.

Quando uma vereadora transforma Banco Master, Americanas e Big Brother em uma coisa só, o problema não é apenas a fala. É o retrato de um parlamento que parece, em muitos momentos, menos uma Casa Legislativa e mais um circo institucional. Ainda que, no circo verdadeiro existe técnica, ensaio e profissionalismo.

Moana Valadares pode ter disposição para o embate. Pode ter coragem para defender o seu grupo político. Mas coragem sem repertório vira só barulho. E barulho, na política, pode até render corte para rede social, mas não sustenta argumento.

Talvez Rodrigo Valadares, que tem reconhecida habilidade discursiva dentro do seu campo político, devesse recomendar à vereadora um bom media training. Não por vaidade. Por necessidade. Porque em um ambiente onde nomes como Elber Batalha demonstram preparo, leitura jurídica e capacidade de articulação, improvisar mal custa caro.

A vida pública não é reality show. A tribuna não é confessionário. E a Câmara de Vereadores de Aracaju não pode continuar funcionando como uma sala de eliminação moral, onde vence quem grita mais e não quem argumenta melhor.

A população não precisa de parlamentar performático. Precisa de parlamentar preparado.

E, nesse episódio, a comparação feita por Moana não apenas falhou. Ela expôs, com luz de estúdio e câmera aberta, o tamanho do despreparo.

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